Quase Dezembro
06 ago 2010 Deixe um comentário
As cortinas fechadas. O cheiro de mofo. E o ar de escritor decadente. Barba por fazer, cigarro a postos, olhar perdido. Era final de tarde de uma quinta-feira – ou de um outro dia qualquer. Não importa.
Acontece que agora estou nesse lugar há não sei quanto tempo. E há não sei quanto tempo eu tenho tanta coisa presa e sufocada em algum lugar do meu corpo que dói. São tantos lugares e tantas dores e tantas faltas.
Maria me faz falta – e me dói. Maria quem me deixou aqui. Com tanta dor e há quanto tempo. Já nem sei. O que interessa é que agora cá estou nesse estado, quase um indigente. Corpo às moscas, sem ser reconhecido. Nem procurado.
E vou inventado meus dias e criando minhas cores, até minha imaginação e escuridão serem interrompidas por um “Com licença, seu José”. Palavras sutis pronunciadas por Dolores, a enfermeira de meia-idade que usa um batom vermelho sangue que chega a me doer o lado esquerdo do peito, à procura do meu coração – ou o que restou dele.
Maria e Dolores se parecem em muitas coisas. O perfume doce, a fala calma e o olhar alheio. Dolores não é dessas enfermeiras que lhe tratam como criança. Isso é um hospital de malucos, pode usar o eufemismo que quiser, mas aqui só tem doente da cabeça, maluquinho, perturbado e todos os sinônimos possíveis no Aurélio.
Dolores me trata como se eu fosse parte do primeiro fonema de seu nome. Como uma doença, lepra, que seja, essas doenças que as pessoas mal conhecem, mas já morrem de medo. O zelo se justifica pelo medo. Assim como Maria. Maria tinha medo. De mim. Do amor. Da dor. Mais do amor do que da dor. Achava que o segundo era conseqüência do primeiro.
E é. Tanto é verdade que um dia Maria resolveu se separar do seu José – eu. E foi. Não sei para onde, talvez tenha fugido com os três reis magos. Resolveu não ter mais medo. Nem de mim, nem do amor, nem da dor.
Respeito tanto a decisão da minha Maria, que me calo. Não vou mentir, não tenho a quem enganar. Tive outras mulheres depois dela. Muitas outras Marias, muitas outras Madalenas. E, futuramente – quem sabe – uma possível Dolores. E eu não sou o Judas nessa história!
Estou nesse hospital de doidinhos graças a Maria. E veja o absurdo, não é nem porque eu era doido por ela. É porque Maria sumiu. Sumiu. Me deixou. Ela me deixou foi louco. Louco de amor. Sinto dores em lugares que nem sabia que existiam. Sinto falta de Maria. Você entende? De novo: dores, lugares, falta. Alguém tem de entender.
Dolores talvez entenda. Por isso o olhar alheio. Ela sente, assim como Maria, medo de mim, do amor, da dor. Acontece que mais forte do que o batom cor de sangue é o líquido que corre nas minhas veias. E no corpo de Dolores. E já é quase dezembro. Época em que o final se transforma no começo.